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Tarefas técnicas possuem valor para o product owner?

9 de março de 2010

Na última turma de Agile e Scrum que ministrei, assim como nos diversos projetos que atuei desde 2005 com alguma metodologia ágil (xp, scrum ou lean), a questão das tarefas técnicas e seu valor para o cliente sempre apareçe.

Sonhando sobre o assunto, como de costume, encontrei uma resposta mais objetiva, menos subjetiva do que a abordagem tradicional, o clássico sim ou não.

O objetivo do PO

Como PO, o mais importante é a entrega de um produto que adicione valor ao que meu cliente utilizará, permitindo ganhar mercado contra meus concorrentes ou cobrar um valor mais alto pelo meu produto ou serviço.

Toda e qualquer história que não tenha como resultado final – direto ou indireto – aumentar o retorno do produto para minha empresa não possui valor.

E é esse o conceito objetivo que utilizamos na hora de aceitar e priorizar histórias técnicas: se ela não permite um retorno nesse instante ao meu produto, ela pode ser postergada.

Visto o último post que indica a importância da priorização adequada em relação ao retorno ganho, a execução de histórias técnicas sem retorno ao negócio poderiam atrasar ainda mais o sucesso do último.

Exemplo 1: Requisitos não funcionais

Quando tratamos de requisitos não funcionais, como por exemplo escalabilidade, foque em objetivos claros. Exemplificando, se os seus desenvolvedores indicam a necessidade de migrar seu banco de dados relacional para uma estrutura baseada em documentos pois o mesmo “agüenta mais usuários”, peça uma meta mais objetiva.

Primeiramente, a necessidade de atender mais usuários deve surgir de seus clientes, reclamando por mais performance em picos de uso, ou de você mesmo – prevendo um aumento de seus clientes em uma futura propraganda do sistema, por exemplo.

Supondo que o pedido surgiu de uma necessidade do produto, agora está na hora dos desenvolvedores criarem um spike – uma experiência para medir o possível sucesso de tal abordagem – e então retornarem com uma média esperada de melhora na escalabilidade do sistema (ou em outro requisito não funcional qualquer).

Tanto o spike, quanto a execução da tarefa técnica, com uma avaliação objetiva de seu sucesso (i.e. atender a X page views por segundo, respondendo em menos de 5 segundos), são histórias para seu backlog, pois ambas agregam valor a seu produto: se você não executá-las, seus possíveis e atuais clientes migrarão para os concorrentes.

Exemplo 2: Outras histórias técnicas

Por vezes as histórias técnicas que surgem não estão ligadas a requisitos não funcionais. Um exemplo é a instalação de um servidor de homologação e processo de homologação e deploy contínuo no estilo devops, fugindo do estilo tradicional, menos ágil, de operações. O que fazer?

Novamente, a equipe de desenvolvimento deve mostrar para o PO que tal história possui valor, e o PO priorizar de acordo com o valor mostrado.

O argumento a ser utilizado, no exemplo acima, estaria relacionado a velocidade de entrega de valor. Se a média dos últimos sprints tem sido de 20 pontos devido a bugs que são encontrados somente em produção, pois a máquina dos devs e de homologação está muito diferente das configurações reais, deixe claro que essa média poderá aumentar, uma vez que os bugs invalidadores de história serão encontrados antes e, com o passar dos sprints, X pontos que são utilizados agora para implementar tal processo serão retornados.

Existe valor na história técnica?

Em suma, histórias técnicas podem entrar no Backlog de maneira benéfica para seu produto, mas não se deve aceitar qualquer história. Ela deve ser julgada e priorizada de acordo com o valor que a mesma agrega ao seu negócio, e é responsabilidade dos desenvolvedores – seus clientes técnicos – mostrarem tal valor para o PO.

É importante ressaltar que qualquer tipo de debito técnico grande pode ser explicado de uma maneira que adicione valor ao produto, pois diminui a velocidade de entrega de retorno. Mas se o débito for muito pequeno, ele pode ser executado dentro do sprint, no dia a dia.

Exemplo 3: E na Caelum?

Em projetos internos da Caelum, temos uma preocupação que é incomum as empresas de desenvolvimento. A transferência de conhecimento entre instrutores e consultores tem que ser realçada, assim como o estudo de novas tecnologias e práticas de desenvolvimento.

Sendo assim, histórias envolvendo o aprendizado entregam valor direto para nosso negócio e acabamos por aceitá-las ou até mesmo colocá-las dentro do backlog.

Não se isole do resto de sua equipe

Os dois lados, PO priorizando valor, e desenvolvedores que priorizam qualidade, devem ser capazes de entender a necessidade do outro: não existe equipe auto gerenciável onde PO e desenvolvedores são inimigos, ambos fazem parte da mesma equipe.

PO, você anda colocando histórias de qualidade, spikes etc em seu backlog?

E você desenvolvedor, anda deixando claro para seu PO o retorno que o mesmo obtém ao priorizar tais tarefas e o comprometimento com um resultado objetivo?

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Como criar e priorizar um backlog

4 de março de 2010

Quando o Product Owner escuta pela primeira vez: o que é mais importante para entregar nesse primeiro ciclo de release? A resposta clássica é “o software inteiro”.

Uma das principais dificuldades que um PO encontra ao priorizar seu backlog nas primeiras vezes está ligado ao seu desejo de apresentar o produto completo para seus clientes.

Imagine a situação de um produto que controla venda de tickets de eventos musicais. O sistema é pensado e acessado da seguinte maneira:

Um administrador cadastra eventos, o usuário final busca um evento, se cadastra no site, escolhe a cadeira – se possível, efetua o pagamento e finalmente imprime o ingresso.

Sequência de uso do sistema

A clássica abordagem seria priorizar o backlog da seguinte maneira:

1. cadastro de administrador do sistema
2. gerenciamento de eventos (cadastra, remove, atualiza, cadastra cadeiras marcadas)
3. busca de eventos
4. cadastro de usuários e comentários para eventos
5. escolha de cadeiras
6. receber pagamentos
7. emissão de bilhetes

Para fins didáticos, supondo uma necessidade uniforme de 3 semanas para a execução de qualquer história, o PO só possui um site que agrega valor a sua empresa no final de 4 meses e 2 semanas, e com suporte a emissão automática após 5 meses e 1 semana.

Somente no final desse período ele terá feedback dos usuários finais, aqueles que se comportam de maneira imprevisível e detectam bugs que não imaginávamos existir.

O que aconteceu? As histórias foram priorizadas de acordo com o momento em que elas aparecem no fluxo de acesso ao software.

Mas precisamos mesmo de todas essas histórias completas para entregar valor ao nosso PO e consequentemente permitir o uso do software pelo cliente?

Note que uma outra priorização também é possível:

1. criação e atualização de eventos com senha master (1.5)
2. busca de eventos (3)
3. cadastro de usuários e comentários para eventos (3)
4. receber pagamentos (3)
5. emissão de bilhetes (3)
6. cadastro de cadeiras para eventos (1.5)
7. escolha de cadeiras (3)
. cadastro de administrador do sistema
. remoção de eventos

Com essa priorização, temos:

~1 mês: um site de busca de eventos
~2 meses: um site colaborativo de eventos
~2 meses e meio: as vendas online iniciam
~3 meses: emissão de bilhetes online revoluciona o mercado
3 meses e meio: escolha de cadeiras online revoluciona o mercado

Note que o próprio desenvolvimento passa a ser pago pelas vendas que foram geradas após 2 meses e meio.

Por não tentar seguir o fluxo do usuário em um sistema mas sim entregar funcionalidades que o mesmo pode utilizar desde o início, o PO e sua empresa ganham uma vantagem competitiva muito forte.

Quando seus concorrentes entregarem o sistema, a empresa que utilizou a segunda priorização já possui uma comunidade de usuários forte, um sistema com menos bugs, e gerando dinheiro há algum tempo.

A segunda empresa obteve retorno real 50% mais rápido que a primeira.

Crie histórias e priorize-as para entregar sempre algo utilizável, não crie e priorize para entregar tudo. A criação de seu backlog e a priorização é fundamental para sua posição no mercado, seja você uma empresa de produtos ou web 2.0.

E você, possui outras dicas de criação e priorização?