Um produto por semana

30 de março de 2010

Para atender a demanda de um cliente decidimos aplicar uma técnica de criação rápida de um produto. Ele precisava de uma ferramenta de otimização de feeds e widgets, permitindo encontrar novos parceiros – indo um passo a mais de distância que o Urchin ou Analytics.

Duas semanas depois, o Probe estava no ar atendendo as requisições internas e gerando estatísticas importantes sobre parceiros de qualquer empresa. Mas o que permitiu entregar um produto tão rápido?

Fugindo do brainstorm

A idéia do produto já havia sido discutida internamente na Caelum entre diversas pessoas, o que amadurece a mesma, permitindo cortar idéias não triviais que seriam danosas a uma primeira entrega. Esse período não foi um brainstorm onde determinadas pessoas sentam numa mesa e discutem ao máximo determinado assunto, tentando chegar na visão ótima do que seria seu produto. Pelo contrário, isso não seria nada ágil.

Não existe e consequentemente é impossível alcançar algo perfeito, adaptamos o que temos para chegar o mais próximo do idealizado.

Discutir no dia a dia a idéia com diversas mentes que entendem um pouco ou muito do assunto amadurece aos poucos a visão que temos do produto.

A interface

Por mais que alguns projetos com os quais os usuários interagem possam ser tocados sem wireframe, para evitar dúvidas pontuais de CSS, usabilidade etc, utilizamos um design pronto (simples, intuitivo e direto), economizando tempo de pesquisa e encaixe pois as lógicas já eram criadas no design final.

Fazer o mínimo possível

Com o design em mãos e uma visão razoável do que queremos, escolhemos as funcionalidades mínimas para ter um produto que entregue algo que os produtos similares (Feedburner, Analytics etc) ainda não fazem. Essas funcionalidades, um subconjunto de histórias, foi definido como o objetivo ideal de entrega: o que deixaria o produto um passo a frente dos concorrentes.

Além disso, o PO possuia uma data de entrega, quando o sistema deveria estar no ar, que só ele conhecia. E aí entra a questão: se a data e o escopo estão fixos, perderemos qualidade.

Excluindo funcionalidades

Para fugir da perda de qualidade, o escopo era ideal, mas não fixo. Se fosse possível entregar tudo o que o PO desejava, ótimo, se não, ele deve estar pronto para lidar com o que foi entregue. Durante essa fase, o PO é capaz de rejulgar o escopo.

Após poucos dias, algumas funcionalidades foram cortadas, pois ficou claro que a ferramenta já entregaria valor suficiente com menos do que originalmente pensado para o primeiro release.

Excluindo funcionalidades

Mais alguns dias e novamente outras funcionalidades se apresentaram desnecessárias, junto com a maior importância na data de entrega do que no escopo a ser entregue. Com isso, menos funcionalidades (menos valor) seriam feitas, mas teríamos um produto que retorna valor em breve.

Priorizando o backlog

Priorizar o backlog adequadamente foi outra ação fundamental para entregar o máximo de valor possível no produto desenvolvido.

Excluindo funcionalidades

A equipe não possui um comprometimento com um escopo em uma data específica, portanto é responsabilidade do PO escolher o que é melhor ser entregue nesse período, isto é, priorizar corretamente.

Foram mais de duas vezes durante o período de desenvolvimento que cortamos funcionalidades. Em todas elas ganhamos tempo pois entregaríamos algo usável antes do planejado.

Equipe mínima

Em um início de produto tão rápido, é necessário manter uma equipe pequena pois qualquer burocratização do dia a dia de desenvolvimento levaria tempo demasiado para encaixar-se nas poucas horas. No nosso caso, existiam dois desenvolvedores e sentimos que em um grupo de até três, talvez quatro, seria possível fazer um trabalho similar.

Qualidade

Apesar de usar as práticas mais educadas possíveis, houve uma queda na qualidade, algo que o PO teve que pesar: após as 64 horas de desenvolvimento (2 pessoas, 4 dias úteis), tivemos mais 60 horas para investir somente em testes e refatorações.

A partir daqui, o desenvolvimento deve ser feito seguindo todas as práticas que acreditamos, sem margem para entregas rápidas como essa primeira pois a complexidade desse trabalho aumenta muito.

Pareamento e isolamento

A equipe se manteve razoavelmente distante de outras equipes de desenvolvimento e combinou pareamento com programação não pareada. Houve um equilíbrio de forças, misturando a propriedade coletiva do código com a produtividade que foi necessária. Novamente, após essa primeira entrega, abrir mão do pareamento se torna inviável.

Cliente ao lado

A qualquer instante os desenvolvedores tinham acesso ao PO e o cliente, tomando alguns cuidados. Esse é um ponto a ser defendido a todo custo se a entrega de uma versão inicial seguirá esse padrão. A qualquer instante o cliente poderá remover histórias desnecessárias ou solucionar problemas.

Na continuidade do projeto, isso já se torna diferente, uma vez que não esperamos re-priorizações dentro de sprint ou um cliente 100% liberado para os desenvolvedores.

Outros

Existem daily meetings, feedback rápido etc, como as práticas ágeis defendem.

A entrega

Após ter entrado em produção notamos que o tempo todo de desenvolvimento, o foco estava voltando na entrega de algo utilizável, algo com valor para o cliente, que no dia seguinte já poderia colocar em produção.

Deixamos um front end aberto da aplicação para quem desejar visualizá-lo, apesar do back end envolver funcionalidades ligadas com REST, feeds, widgets etc que não estão visíveis no mesmo.

Resumindo

O primeiro release de um produto pode ser feito com práticas ágeis que fujam um pouco da qualidade máxima que tentamos atingir, viabilizando uma entrega rápida – mas não necessariamente ágil a todo instante – e valiosa.

Mas nada disso serve como desculpa para manter o desenvolvimento do produto dessa maneira posteriormente: a preocupação com a qualidade deve voltar ao máximo e a partir desse instante um método de desenvolvimento mais formal (como Scrum, Lean etc) deve ser seguido.

Post criado junto com o Thiago Ferreira da Caelum.

Anúncios

7 Respostas to “Um produto por semana”


  1. Mto bom artigo, o uso dessas praticas podem mesmo mesmo ter grandes ganhos de tempos e o melhor com qualidade e usando os Agile, 1 produto por semana é realmente um grande aproveitamento de tempo

  2. Rafael Says:

    Post muito bom. Retrata como as práticas ágeis podem ser utilizadas de forma prática em um desenvolvimento de um novo produto, e não só em customizações de sistemas existentes.

    Irei acompanhar o blog mais de perto agora. O conteúdo está ótimo.

    Parabéns.


  3. Guilherme, fiquei com uma dúvida relacionada à qualidade. Neste trecho, você informou que:

    “…tivemos mais 60 horas para investir somente em testes e refatorações…”

    Estas 60 horas compuseram a segunda semana, correto?

    Mesmo com essas 60 horas, não foi possível garantir qualidade próxima à ideal para esta primeira entrega?

    Quais pontos de “um método de desenvolvimento mais formal” foram deixados de lado, nesse primeiro momento?

    Abraços

  4. guilhermesilveira Says:

    @fernando, @rafael, obrigado!

    @celso, ótimas perguntas. tentamos evitar prolongar alguns trechos para não ficar com um post muito grande. Perfeito, as outras horas foram usadas depois para voltar atrás em soluções práticas mas não ideias que adotamos em alguns pontos. Um exemplo foi o uso indiscriminado de navegação entre relacionamentos quando deveríamos executar alguns joins (algums telas ficavam lentas).

    Com essas 60 horas chegamos a quase o que gostaríamos de ter, e estavamos no ponto de começar um sprint de verdade, agora com a casa em ordem.

    Comparando o quick start com o Scrum que costumamos aplicar, o escopo variável (sprint backlog) foi a grande diferença. Mas como havia uma meta clara, remover elementos e saber que não existia um comprometimento com entregar o escopo completo não machucou.

    Comparado com o XP que costumamos fazer, houve menos tempo de pareamento, por exemplo o projeto atual do Thiago deve estar bem próximo de 100%, falta de testes end-to-end do front-end e não tanto foco em refatoração após a história estar completo.

    A parte de XP foram os principais fatores que precisamos correr atrás na semana seguinte.

    Mas com certeza, não recomendo isso para um projeto no dia a dia, somente quando executar o quick start.

    Abraço

  5. rafasr Says:

    Beleza, tinha curioso pela resposta à pergunta do Celso!

    O mais interessante do seu exemplo chama-se adaptação. Você, por mais que tenha processos rígidos, deve sempre procurar se adequar às necessidades do cliente.

    Abraço!

    @rsouzaramos

  6. guilhermesilveira Says:

    @rsouzaramos, pois é, parece que é a adaptação ao extremo durante o boost. foi muito interessante perceber que, com cuidado, não caiu em “pastelaria eterna”


  7. […] melhorar o processo de desenvolvimento é verificar que perdemos dinheiro ao tomar decisões ou muito cedo, ou tarde […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: